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#walreisemoutraspalavras

A difícil arte de interpretar o outro: não tente. A chance de errar é imensa

Sim, a intuição é um sentido que nos dá pistas fortes de uma realidade que não está muito clara. O problema é que nós, os não-treinados na arte de intuir, na maioria das vezes,  não sabemos separar o que é intuição do que é medo, desejo ou vontade. O “estou com um pressentimento de que vai acontecer algo de errado essa noite e, por isso, não vou sair de casa” pode ser só uma preguiça tentando ser justificada. Mas é quando usamos a tal intuição para adivinhar o outro que a coisa desanda de vez. Porque o leque de possibilidades atrás de uma frase em reticências, de uma meia-palavra e de um olhar enigmático tem a chance sim de ser o que você acha que é. E mais 23.548 coisas, incluindo o que seu interlocutor diz ser. Por isso, na dúvida, não tente acertar. Você pode se frustrar, criar uma tempestade num copo d’água ou inventar um conceito errado. Ou tudo isso junto. Lembro de um amigo que tomou coragem (e dois uísques) e se declarou para uma colega de turma em uma festa. Ela não respondeu nada, fez uma cara engraçada e saiu de perto apressadamente, pedindo que a ... Leia Mais

Sobre amar alguém que nunca existiu além da sua imaginação

No romance de terror Frankenstein, da britânica Mary Shelley, o estudante de ciências naturais Victor Frankenstein “constrói” uma criatura humanoide com restos de cadáveres. Guardadas as devidas proporções, às vezes, também brincamos de doutor Frankenstein, “construindo” pessoas que não existem, a partir de alguma referência de carne e osso. Acontece mais ou menos assim: a gente conhece alguém, se interessa pela embalagem e por algumas informações que constam no rótulo. E a partir daí, ao invés de ler nas letras pequenas os ingredientes que compõem o produto e tentar saber se não tem nada ali que faça mal à saúde, criamos o personagem com base em referências de “pessoa ideal” e somamos nossas mais seletas expectativas românticas. E está feita a merda (ou m… ou burrada). Obviamente, qualquer começo de relacionamento que se preze é pura sedução. Queremos parecer interessantes, inteligentes e cheios de bom senso, além de darmos aquela disfarçada nas imperfeiçõezinhas. Nada condenável: a prática de parecer melhor do que se é para atrair o parceiro faz parte da dança do acasalamento em muitas espécies na natureza. Mas quando o namoro segue, o tempo funciona como uma grande lente da verdade, que vai mostrando quem é quem, independente ... Leia Mais

A arte de se tornar descartável onde você era imprescindível

Tem gente acha que vai fazer falta para sempre na vida de alguém. Às vezes nem é por maldade, mas a sensação de ser imprescindível traz uma segurança, uma crença meio torta de que não é necessária quase nenhuma dedicação para manter a preferência. Como se o gostar do outro fosse uma fonte inesgotável de amor jorrando em sua direção. Mas amor é recurso finito. O poço seca quando só se faz retiradas. Quem ama também cansa. Cansa de aguardar por decisões que nunca chegam, cansa de acreditar que as promessas um dia serão cumpridas, cansa de receber “nãos” para todas as propostas, cansa de ver o companheiro andando em círculos e cansa de recolher migalhas depois de oferecer um banquete com o melhor de si. Cansa de ser invisível para quem sempre significou luz. Aos poucos – e talvez isso seja o mais triste –, por falta de uma atenção genuína, vamos deixando de contar nossas histórias, de pedir opinião, de fazer planos juntos e de procurar aconchego em abraços que nunca estiveram verdadeiramente dispostos a consolar. Cai a ficha de que estávamos sozinhos com nossa predileção. De protagonista a figurante Mas idolatria tem limite. O processo pode até ... Leia Mais

Algumas pessoas vão viver em pandemia para sempre

A pandemia fez muito mais do que mudar nossas rotinas temporariamente e levar ao fechamento de fronteiras físicas. Ela também fechou fronteiras morais e, em alguns casos, para sempre. Porque a pandemia pode até sair de cena daqui a algum tempo, mas ela não vai sair de dentro daqueles que, independente da vacina, do controle ou – caso fosse possível – da extirpação do maldito coronavírus da face da Terra já optaram pela doença. Essas pessoas nunca irão acreditar na cura: foram contaminadas pelo vírus da incerteza, do medo e da desconfiança no próximo. São sintomas da gentefobia, que ficaram incubados e só se manifestaram depois da chegada da COVID-19. É como se aqueles que adotaram o #fiqueemcasa como meio de vida para muito além deste estado de exceção já almejassem o isolamento social, mas só depois de toda essa confusão encontraram respaldo técnico-científico para abonar a preferência, dando vazão a receios menos contagiosos que o vírus, mas, às vezes, bem perigosos para a saúde mental. Empunhando a nobre – nobre mesmo! – bandeira de evitar a transmissão, alguns se mantêm em cárcere, encontrando, no máximo, o vizinho de andar ao ir jogar o lixo, extravasando a vontade antiga de ... Leia Mais

Este grande tropeço chamado 2020: mas é hora de levantar e sacudir a poeira

Na minha rotina, apesar de não recomendar, costumo fazer 56 coisas ao mesmo tempo: cozinho e falo no telefone, tomo café da manhã enquanto seco o cabelo, escovo os dentes guardando as toalhas, passo roupa enquanto vejo o noticiário. Além disso, ainda imprimo uma velocidade de atleta queniano em tudo o que faço. Nada é devagar e quando alguém de casa quer me contar algo, minha frase geralmente é:  me segue e vai falando. A justificativa do meu corre diário não é nada incomum: como a grande maioria dos adultos modernos, tenho muita coisa para fazer nas míseras 18 horas em que estou acordada e uma necessidade imensa de corresponder a tudo. Uma ânsia de dar conta, de cumprir horários e metas até que… Até que em uma manhã, enquanto eu arrumava a bolsa para sair, colocava água na planta, estendia a toalha na lavanderia e fazia maquiagem uma gotinha traiçoeira do meu óleo pós-banho, que havia caído no chão do banheiro, encontrou meu pé descalço e cumpriu seu papel de tentar me derrubar. Foi um belo escorregão até minha canela encontrar o gabinete da pia e aparar a queda iminente. Para quem joga futebol, foi mais ou menos como ... Leia Mais