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#RevistaAnamaria

A difícil arte de interpretar o outro: não tente. A chance de errar é imensa

Sim, a intuição é um sentido que nos dá pistas fortes de uma realidade que não está muito clara. O problema é que nós, os não-treinados na arte de intuir, na maioria das vezes,  não sabemos separar o que é intuição do que é medo, desejo ou vontade. O “estou com um pressentimento de que vai acontecer algo de errado essa noite e, por isso, não vou sair de casa” pode ser só uma preguiça tentando ser justificada. Mas é quando usamos a tal intuição para adivinhar o outro que a coisa desanda de vez. Porque o leque de possibilidades atrás de uma frase em reticências, de uma meia-palavra e de um olhar enigmático tem a chance sim de ser o que você acha que é. E mais 23.548 coisas, incluindo o que seu interlocutor diz ser. Por isso, na dúvida, não tente acertar. Você pode se frustrar, criar uma tempestade num copo d’água ou inventar um conceito errado. Ou tudo isso junto. Lembro de um amigo que tomou coragem (e dois uísques) e se declarou para uma colega de turma em uma festa. Ela não respondeu nada, fez uma cara engraçada e saiu de perto apressadamente, pedindo que a ... Leia Mais

A arte de se tornar descartável onde você era imprescindível

Tem gente acha que vai fazer falta para sempre na vida de alguém. Às vezes nem é por maldade, mas a sensação de ser imprescindível traz uma segurança, uma crença meio torta de que não é necessária quase nenhuma dedicação para manter a preferência. Como se o gostar do outro fosse uma fonte inesgotável de amor jorrando em sua direção. Mas amor é recurso finito. O poço seca quando só se faz retiradas. Quem ama também cansa. Cansa de aguardar por decisões que nunca chegam, cansa de acreditar que as promessas um dia serão cumpridas, cansa de receber “nãos” para todas as propostas, cansa de ver o companheiro andando em círculos e cansa de recolher migalhas depois de oferecer um banquete com o melhor de si. Cansa de ser invisível para quem sempre significou luz. Aos poucos – e talvez isso seja o mais triste –, por falta de uma atenção genuína, vamos deixando de contar nossas histórias, de pedir opinião, de fazer planos juntos e de procurar aconchego em abraços que nunca estiveram verdadeiramente dispostos a consolar. Cai a ficha de que estávamos sozinhos com nossa predileção. De protagonista a figurante Mas idolatria tem limite. O processo pode até ... Leia Mais

Algumas pessoas vão viver em pandemia para sempre

A pandemia fez muito mais do que mudar nossas rotinas temporariamente e levar ao fechamento de fronteiras físicas. Ela também fechou fronteiras morais e, em alguns casos, para sempre. Porque a pandemia pode até sair de cena daqui a algum tempo, mas ela não vai sair de dentro daqueles que, independente da vacina, do controle ou – caso fosse possível – da extirpação do maldito coronavírus da face da Terra já optaram pela doença. Essas pessoas nunca irão acreditar na cura: foram contaminadas pelo vírus da incerteza, do medo e da desconfiança no próximo. São sintomas da gentefobia, que ficaram incubados e só se manifestaram depois da chegada da COVID-19. É como se aqueles que adotaram o #fiqueemcasa como meio de vida para muito além deste estado de exceção já almejassem o isolamento social, mas só depois de toda essa confusão encontraram respaldo técnico-científico para abonar a preferência, dando vazão a receios menos contagiosos que o vírus, mas, às vezes, bem perigosos para a saúde mental. Empunhando a nobre – nobre mesmo! – bandeira de evitar a transmissão, alguns se mantêm em cárcere, encontrando, no máximo, o vizinho de andar ao ir jogar o lixo, extravasando a vontade antiga de ... Leia Mais

Não se apequene para caber nos planos de alguém: isso não é amor

Acontece meio devagar e não nos damos conta logo de cara: deixamos de fazer um curso que nos interessava e ia ajudar no trabalho, largamos a faculdade pela metade ou nos abstemos de ir morar em outra cidade em nome de ficar mais perto e por mais tempo de quem roubou nosso coração. No começo, parece o mais lógico a fazer. Afinal, que graça teria viajar – mesmo que a viagem tenha sido planejada há tempos e o destino era um sonho antigo – se a pessoa escolhida não estará junto? Mas aí o relacionamento segue e seguimos mais apaixonados, fazendo de tudo para não magoar a outra parte, com receio que qualquer atitude fora do contexto estrague aquele mar de rosas. E não notamos que o mar de rosas só existe porque somos nós que entramos com as rosas. Não percebemos, uma vez que o foco não está mais em nós. E assistimos filmes de ação quando a preferência são as comédias bobinhas. Vamos fazer crossfit com os joelhos em frangalhos porque seu par acha legal isso de treinar em casal e deixamos de lado nossa predileção por dançar balé. Descobre-se, na prática, que o companheiro morre de ciúmes ... Leia Mais

Cartinha de Natal: querido Papai Noel, me dá um tempo?

Querido Papai Noel, espero que este meu pedido não chegue atrasado ou que você já tenha saído da Lapônia e esteja sem sinal de internet. Eu sei, eu sei: deveria ter me organizado melhor e mandado a cartinha dentro do prazo estabelecido por sua empresa, cumprindo os protocolos que sempre me perseguem. Mas o meu presente tem tudo a ver com este atropelo: Noel, eu quero pedir tempo. Sabe tempo? Aquele que é fundamental para fazer as coisas com calma, organizadamente, sem ter que sair de casa tão atropelado que esquece a alma no elevador? Ou até mesmo para ficar zapeando a TV e reclamando, com ares de tédio, que não tem nada de bom para ver? Ou para passar uma tarde inteira lendo e cochilando de pijama e cabelo sujo? Aquele que é vital para fazer coisas ainda menos nobres, como falar mal dos outros numa mesa de café com uma amiga, sem olhar e-mails de doze em doze segundos ou ter o WhatsApp apitando freneticamente, provando, a cada nova mensagem, que você tem que fracionar tanto o seu tempo para os outros, que acaba não sobrando nada dele para usar como realmente gostaria? Pois é: eu queria este ... Leia Mais