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Todo mundo tem alguém que foi embora

Todo mundo tem alguém que foi embora e que, apesar de ter ido embora, nunca se transformou em ausência. Alguém que, mesmo não estando, dorme e acorda com a gente todos os dias. Toma um lado da cama, a cadeira no posto de trabalho ou viaja junto nas férias. Está na música que se ouve e protagoniza todos os filmes assistidos. Com quem se conversa o tempo todo, ciente de que a resposta não virá. Alguém que foi e não deixou só a saudade. Quando alguém assim retira-se, descobrimos o tamanho do espaço que o vazio pode ocupar. Um espaço tão grande que sobra pouco para acomodar qualquer coisa, principalmente as novas.  Porque vazio é solo seco onde nada prospera e não conseguimos plantar nem a esperança. O vazio de quem não está é tão robusto que é quase uma presença, mas uma presença triste e calada, que deixa sorrisos escassos e olhos apagados. Todo mundo tem alguém que deixou sonhos ou a pasta de dentes pela metade. Uma roupa pendurada no armário, um perfume dentro da gaveta ou um livro com a página marcada. Alguém que jurou que nunca iria a parte alguma e que partiu o juramento e ... Leia Mais

A pequena grande transgressão das sandálias vermelhas

Visitei o site umas 12 vezes. E a sandália lá, me provocando. Vermelha, ocupando toda a tela. Não era qualquer vermelho. Era um vermelho daqueles que se enxerga a dois quilômetros de distância e faz você virar ponto de referência: “aquela da sandália vermelha”. Uma papete meio espalhafatosa, com cara de verão, a um preço nada exorbitante. E tinha meu número – uma raridade quando se calça 34. Haviam também as outras cores ditas mais versáteis: nude, branco, amarelo e até a pretinha básica “vai com tudo”. Fiquei ali, naquela luta moral com o mouse em punho: colocava a amarela na sacola virtual do site, tentando me convencer de que ela tinha um pingo de ousadia e ia ficar linda com alguns dos meus vestidos. Mas, na hora de fechar o pedido, voltava a olhar a vermelha. E trocava. Conferia mentalmente a paleta de cores no meu armário e concluía, sem muita convicção, que a vermelhinha não daria certo com nada. E optava de novo por alguma cor daquelas que as pessoas esperavam ver nos meus pés. Porém, ainda que imbuída de toda esta racionalidade, não conseguia concluir a compra. “Pega a amarela. A vermelha é muito vermelha. Você não ... Leia Mais

Por que sabotamos projetos pessoais, se eles é que deveriam estar no topo da lista?

Adiamos muito o momento de ser feliz. Tanto que, às vezes, nem dá para fazer isso no tempo regulamentar do jogo. Esperamos a formatura, o emprego estável, o dinheiro sobrar, o casamento engrenar, o crescimento dos filhos e – pasmem – até a morte dos pais para só então implementar algo que seja verdadeiramente por nós mesmos. Mas é tanta espera que, não raro, esses projetos vão perdendo a força ou ficando impossíveis de serem executados, dado o avançado da hora. É como se estivéssemos atrasados para a própria festa, chegando quando a orquestra já entoa os acordes finais e, cansados e sem ânimo devido a longa viagem, nem nos animamos a dançar a última música. Mesmo sem querer, passamos a vida dando satisfação aos outros, numa ânsia frenética de corresponder às expectativas terceiras. Quanto talento desperdiçado, quanto sonho abortado em prol de “ser certinho”, de se encaixar em padrões e não ser taxado de filho ingrato, de desmiolado ou irresponsável. Andando na trilha já pisada, você até escapa de ser apontado como a ovelha negra, mas não se esquiva de uma angústia crescente por sempre ir na contramão de suas próprias vontades, sujeito a morrer atropelado por planos que ... Leia Mais

Até que o excesso de amor nos separe

Já vai? Não, toma mais um café. É cedo. Ainda preciso te contar umas histórias… na verdade, agora não lembro quais são essas histórias. Mas ainda há muito para contar. Afinal, foi dessa forma que Sherazade se livrou da morte e ganhou o amor eterno do rei Shariar, não foi? Hoje entendo o empenho de Sherazade. É difícil encarar o fim. Sempre depois que você sai, eu me recordo de algo que não dividi. E fico esperando a próxima oportunidade. Sim, eu sei. Não teremos outra oportunidade. Por isso acho importante você ficar mais um pouco. Assim eu tenho mais matéria-prima para recarregar minha memória, todas as vezes que precisar recorrer a ela para ter você por perto. Está certo. Combinamos de não dar um tom melodramático.  Na verdade, você combinou. A mim, me coube aceitar. Concordo, claro. Que futuro a gente teria? Só porque nos amamos incondicionalmente, completamos a frase um do outro, rimos juntos a maior parte do tempo, temos princípios similares, os mesmos ídolos, entendemos nossas diferenças e somos nossos maiores fãs? Como dois seres humanos que sentem que o tempo ganha cor quando um está com o outro, que são capazes de conversar por horas intermináveis sobre qualquer ... Leia Mais

A arte de ser só e bem acompanhada ao mesmo tempo

Vou escrever no feminino não porque acredito que o cenário é exclusivo, mas talvez este seja um processo mais evidente entre mulheres: na adolescência, seguimos a fila, entramos no modo “Maria vai com as outras”, como diria minha avó, uma vez que ali o que importa é fazer parte de um grupo, ser aceita. Fica um pouco confuso separar o que realmente queremos daquilo que queremos só porque todo mundo que interessa também quer. Nessa fase, não nos entendemos muito bem, seja fisicamente, seja emocionalmente e o espelho acaba sendo o outro e evitamos um olhar mais demorado sobre nós: tudo parece ter vindo com defeito de fábrica. O mau humor, recorrente da faixa etária, não é gratuito: tende a ser resultado dessa completa falta de compreensão de si, como se convivêssemos com uma desconhecida. Na maioria das vezes, só depois de adultas muitas têm a oportunidade de começar uma espécie de autoflerte. Uma descoberta preciosa que sinaliza que nossa melhor amiga estava ali o tempo todo. Vamos tirando de letra manias e teimosias, enquanto aprendemos a respeitar limites e a valorizar qualidades pessoais e intransferíveis. Vai caindo a ficha de que estar em grupo é ótimo, mas sentar para ... Leia Mais