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Saudade deveria passar por ilha de edição para não sabotar lembranças que precisam ficarPosted by On

Cada vez mais me convenço de que saudade deveria vir com ilha de edição porque trata-se de uma grande sabotadora, que precisa de regras, precisa de doma. Poderia ser uma espécie de aplicativo ou um programa de computador que tornasse viável lembrar apenas o importante para superar determinado momento. Para mudar de fase e seguir adiante. Por exemplo: que vantagem quem viu morrer alguém querido, de uma doença daquelas que levam a alma antes de definhar o corpo, tem ao recordar desta última etapa? Dos dias sombrios de sofrimento? Nenhuma.

A edição de um filme de saudade destes contemplaria só os tempos bons e leves, o período antecessor, antes de a pessoa ter deixado de ser o que nasceu para ser. Uma forma digna de manter um legado que foi maculado pelo infortúnio daqueles que partem por conta de um roteiro mal escrito, sem direito a escolher o desfecho. Talvez dessa forma conseguíssemos deletar cenas de remédios, de dores e de hospital, que tendem a chamuscar a caixa das lembranças.

Já as memórias de gente que não ficou por vontade própria, essas exigem outro tipo de edição porque aí, a saudade, melindrosa como é, faz o contrário e fixa só a perfeição para que a dor da perda doa mais forte. Saudade sádica, que chega com cara de “boa moça” e, com a desculpa de nos abastecer dos momentos lindos, nos castra a vontade de ir em frente porque, imagine, como conseguir chegar novamente àquele nível de encanto? Tínhamos tudo, experimentamos um pedaço do paraíso e agora o que resta é a fumaça esparsa e inalcançável das recordações felizes.

Lentes cor-de-rosa

Mas será? É possível que toda experiência amorosa seja tão irretocável, que não apresente nada negativo, nada que dê uma pista de que o romance estava com os dias contados? Difícil. Mas é isso que a saudade maquiavelicamente faz: ela filtra a realidade com potentes lentes cor-de-rosa para bagunçar nosso coreto e apresenta somente as imagens dignas de Oscar de fotografia.

Depois do fim de um relacionamento, ninguém lembra de brigas e egoísmos. Das palavras tortas engolidas a seco, dos descasos e negligências do dia a dia. E nem daquela pulga atrás da orelha, depois da pequena mentira ou da dor da ausência, quando tudo o que você precisava era de presença. Não. A danada da lembrança joga os dissabores todos no ralo e te oferece um conto de fadas caprichado. A ponto de nos convencermos de que o erro foi nosso. O filme estava impecável: nós é que estragamos o longa-metragem e colocamos tudo a perder.

Para escapar dessas armadilhas, a ilha de edição da saudade deveria trabalhar a todo vapor e buscar nos arquivos ocultos o imperfeito, aquilo que destoava e fazia daquele amor algo mais próximo do real. Só revendo esses capítulos conseguimos montar o quebra-cabeça, que explica o epílogo. E a gente acaba enxergando – mesmo ainda com a névoa dos olhos úmidos – que nenhum fim chega por acaso. E que a memória é bem-vinda para ser aliada e não algoz. A saudade saudável precisa funcionar a nossa favor e não para ajudar a enterrar esperanças de que ainda existe muita beleza para acontecer.

Texto publicado em 01/09/2020 em: https://anamaria.uol.com.br/noticias/ultimas-noticias/saudade-deveria-passar-por-ilha-de-edicao-para-nao-sabotar-lembrancas-que-precisam-ficar.phtml?fbclid=IwAR3EDSHdlan1BmZeVaj7MJMiMfeyTzVitkcfyzuSX1u7YV9ykwPHqlZJiPw

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Revista Anamaria

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