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Revista Anamaria

Saudade deveria passar por ilha de edição para não sabotar lembranças que precisam ficar

Cada vez mais me convenço de que saudade deveria vir com ilha de edição porque trata-se de uma grande sabotadora, que precisa de regras, precisa de doma. Poderia ser uma espécie de aplicativo ou um programa de computador que tornasse viável lembrar apenas o importante para superar determinado momento. Para mudar de fase e seguir adiante. Por exemplo: que vantagem quem viu morrer alguém querido, de uma doença daquelas que levam a alma antes de definhar o corpo, tem ao recordar desta última etapa? Dos dias sombrios de sofrimento? Nenhuma. A edição de um filme de saudade destes contemplaria só os tempos bons e leves, o período antecessor, antes de a pessoa ter deixado de ser o que nasceu para ser. Uma forma digna de manter um legado que foi maculado pelo infortúnio daqueles que partem por conta de um roteiro mal escrito, sem direito a escolher o desfecho. Talvez dessa forma conseguíssemos deletar cenas de remédios, de dores e de hospital, que tendem a chamuscar a caixa das lembranças. Já as memórias de gente que não ficou por vontade própria, essas exigem outro tipo de edição porque aí, a saudade, melindrosa como é, faz o contrário e fixa só ... Leia Mais

Até que o excesso de amor nos separe

Já vai? Não, toma mais um café. É cedo. Ainda preciso te contar umas histórias… na verdade, agora não lembro quais são essas histórias. Mas ainda há muito para contar. Afinal, foi dessa forma que Sherazade se livrou da morte e ganhou o amor eterno do rei Shariar, não foi? Hoje entendo o empenho de Sherazade. É difícil encarar o fim. Sempre depois que você sai, eu me recordo de algo que não dividi. E fico esperando a próxima oportunidade. Sim, eu sei. Não teremos outra oportunidade. Por isso acho importante você ficar mais um pouco. Assim eu tenho mais matéria-prima para recarregar minha memória, todas as vezes que precisar recorrer a ela para ter você por perto. Está certo. Combinamos de não dar um tom melodramático.  Na verdade, você combinou. A mim, me coube aceitar. Concordo, claro. Que futuro a gente teria? Só porque nos amamos incondicionalmente, completamos a frase um do outro, rimos juntos a maior parte do tempo, temos princípios similares, os mesmos ídolos, entendemos nossas diferenças e somos nossos maiores fãs? Como dois seres humanos que sentem que o tempo ganha cor quando um está com o outro, que são capazes de conversar por horas intermináveis sobre qualquer ... Leia Mais

A única batalha que já começa perdida: a luta por amor

Lutar por amor. Não consigo imaginar combate mais sem sentido. Quando escuto alguém dizendo, com a voz cheia de orgulho, que vai lutar para o casamento dar certo ou que está investindo naquela que é a grande paixão, meu único pensamento é: que desperdício de tempo, de esforço e, principalmente, de autoestima. O mais engraçado é que a pessoa realmente acha que está fazendo algo nobre, mas, na verdade, está se negando a entender que essa é uma batalha perdida antes de começar e por uma só razão: para quê serve esta peleja? Está lutando para convencer um ser humano livre de que ele deve ficar enlaçado a você porque este é o “seu” desejo? Está guerreando para provar que é imprescindível na vida de quem simplesmente não sente da mesma forma? Sabe qual é a impressão? Que existe uma intenção de vestir a ideia fixa com o uniforme solene da determinação, atribuindo uma conotação épica ao fato: “visto uma armadura reluzente e, como um guerreiro medieval, vou a campo e arrebato meu grande amor”. Ah, para, né? Desse jeito o objeto amado não é conquista. Na melhor das hipóteses, é prisioneiro de guerra. Lutar por amor não é mandar ... Leia Mais

O destino mais difícil de ser deixado para trás: um lugar chamado nunca mais

Alguma vez você teve uma sensação parecida: é o último dia de uma viagem adorável e, enquanto tranca a mala para voltar à rotina, se avizinha uma espécie de melancolia, que transcende o fim das férias: é a certeza de que tudo o que foi vivido ali já faz parte da história e talvez nunca mais volte a ver aquele lugar, aquelas pessoas ou até reveja, mas não será a mesma experiência. Pode acontecer também ao fechar, pela última vez, a porta da casa que foi cenário de sua infância e entrega as chaves ao novo morador. Olhando através das grades da escola onde estudou ou limpando a gaveta de sua mesa no último dia naquele emprego. Ou ainda ao lembrar do último beijo, aquele não será mais repetido. A ideia do “nunca mais” é difícil de ser assimilada até mesmo quando a vivência nem foi assim tão gratificante. Porque é mais sobre a impotência de mandar no tempo, sobre termos a consciência de que não estamos no comando de nada e de que a vida vai passar incólume, independente de tê-la desfrutado ou não. Nem sempre o “nunca mais” tem a ver com a escassez de anos para serem ... Leia Mais

A arte de ser só e bem acompanhada ao mesmo tempo

Vou escrever no feminino não porque acredito que o cenário é exclusivo, mas talvez este seja um processo mais evidente entre mulheres: na adolescência, seguimos a fila, entramos no modo “Maria vai com as outras”, como diria minha avó, uma vez que ali o que importa é fazer parte de um grupo, ser aceita. Fica um pouco confuso separar o que realmente queremos daquilo que queremos só porque todo mundo que interessa também quer. Nessa fase, não nos entendemos muito bem, seja fisicamente, seja emocionalmente e o espelho acaba sendo o outro e evitamos um olhar mais demorado sobre nós: tudo parece ter vindo com defeito de fábrica. O mau humor, recorrente da faixa etária, não é gratuito: tende a ser resultado dessa completa falta de compreensão de si, como se convivêssemos com uma desconhecida. Na maioria das vezes, só depois de adultas muitas têm a oportunidade de começar uma espécie de autoflerte. Uma descoberta preciosa que sinaliza que nossa melhor amiga estava ali o tempo todo. Vamos tirando de letra manias e teimosias, enquanto aprendemos a respeitar limites e a valorizar qualidades pessoais e intransferíveis. Vai caindo a ficha de que estar em grupo é ótimo, mas sentar para ... Leia Mais