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Em Outras Palavras

O luto e a luta

Só entendemos o tamanho do luto quando o sair da cama se transforma em uma luta diária contra a vontade de esconder a cabeça embaixo das cobertas e fingir que ainda não amanheceu. Porque, na verdade, em você, ainda é noite fechada. A gente só admite o quanto era bom o “sempre” quando tem que engolir o “nunca mais”. Só  constata a luminosidade daquela presença quando a ausência apaga todas as luzes definitivamente. Só dimensiona o tamanho do amor quando não sabe mais onde colocá-lo. Engana-se quem acredita que a morte é o encerrar da vida de uma pessoa apenas. Ela vai além: amarela sorrisos e avermelha olhos; desata abraços e ata nós na garganta; rasga planos, esfria um lado da cama e do coração. Morrer deixa rastros. Cadeiras vazias e armários cheios de roupas. Restos de xampu e de sonhos. Remédios que não curaram e documentos que se extraviaram para sempre de seu dono. A morte cria um acervo triste, repleto de últimos: a última foto, a última mensagem, a última lista do supermercado e o último até breve. E perdura para muito além do dia em que tira alguém de tantos alguéns: vamos nos deparando com pedacinhos daquela ... Leia Mais

Deixa de ser mulherzinha

Quem me conhece sabe que eu implico com o dia da mulher e este ano não ia passar sem texto no contrafluxo das mensagens fofinhas ou empoderadas. E o motivo é simples: na minha cabeça, tudo o que precisa ser exaltado é porque não está naturalmente equiparado e, por isso, fica aquele incômodo, aquela sensação de que impor datas comemorativas só aumenta o abismo entre os sexos, entre as raças, entre os gêneros. Não dava só para respeitar como ser humano e pronto? A ladainha do dia da mulher me lembra um pouco discursos de palestras motivacionais: “somos poderosas, multifacetadas, cuidamos de tudo e de todos blá blá blá.” Parece mais aquela história de que uma mentira contada mil vezes vira verdade. Ou ainda um conto da carochinha para que a gente vista a personagem  e apenas “se ache” ao invés de “ser”. Eu conheço mulheres que ganhariam o prêmio de melhores do ano. A questão é que conheço outras que não receberiam o convite nem pra sentar na plateia. E conheço homens que também mereceriam a condecoração. Isso porque qualidades e defeitos vêm de fábrica pra ambos os sexos, sem distinção. Cada vez que recebo – perdoem amigos, sei ... Leia Mais

Cartinha de Natal: querido Papai Noel, me dá um tempo?

Querido Papai Noel, espero que este meu pedido não chegue atrasado ou que você já tenha saído da Lapônia e esteja sem sinal de internet. Eu sei, eu sei: deveria ter me organizado melhor e mandado a cartinha dentro do prazo estabelecido por sua empresa, cumprindo os protocolos que sempre me perseguem. Mas o meu presente tem tudo a ver com este atropelo: Noel, eu quero pedir tempo. Sabe tempo? Aquele que é fundamental para fazer as coisas com calma, organizadamente, sem ter que sair de casa tão atropelado que esquece a alma no elevador? Ou até mesmo para ficar zapeando a TV e reclamando, com ares de tédio, que não tem nada de bom para ver? Ou para passar uma tarde inteira lendo e cochilando de pijama e cabelo sujo? Aquele que é vital para fazer coisas ainda menos nobres, como falar mal dos outros numa mesa de café com uma amiga, sem olhar e-mails de doze em doze segundos ou ter o WhatsApp apitando freneticamente, provando, a cada nova mensagem, que você tem que fracionar tanto o seu tempo para os outros, que acaba não sobrando nada dele para usar como realmente gostaria? Pois é: eu queria este ... Leia Mais

Psicopatas do amor: fazem do romance um esporte até que o jogo perde a graça

Às vezes nem o olhar mais atento captura, mesmo mantendo um pezinho atrás por excesso de zelo. O máximo que se sente é uma certa estranheza quando a perfeição fica meio fora da realidade. Mas aí vem o pensamento reconfortante: “por que, afinal, não tenho direito de viver uma paixão plena?” E agradece o privilégio de ser agraciada por um amor tão completo, com parceria, cumplicidade e paixão. Por isso é tão difícil engolir o que vem a seguir: você dormiu na melhor parte da história e acordou despejada de seu sonho: o amor não só não está mais ali, como nunca esteve. Nada foi real e não passou de uma miragem no deserto. E o diagnóstico é matador: você foi o brinquedo de um psicopata de relacionamentos. Como todo psicopata que se preze, não mede consequências dos seus atos simplesmente porque não sente: nem compaixão, nem remorso, nem nada. Ele a escolheu para exercitar seu teatro e foi bem sucedido, a ponto de te envolver no que parecia ser o romance da vida. Talvez pelo poder da conquista, para afiar as garras ou simplesmente constatar o quanto é fácil manipular a caça. Mas talvez a gente nunca entenda o ... Leia Mais

Perdoe escolhas erradas do passado: eram o melhor que você podia fazer naquele momento

Temos uma tendência de chorar o leite derramado, sempre imaginando que era o último litro. Somos inconformados com nossa própria história, insistindo que tudo teria sido perfeito se, lá atrás, tivéssemos feito diferente, pegado a outra pista na bifurcação. É fácil prever o passado, olhando agora, do confortável camarote do presente. Antes de tudo, precisamos nos perdoar pelos possíveis erros de rota que cometemos.  Algumas atitudes burras eram o melhor que podíamos fazer com as ferramentas que tínhamos para lidar com as circunstâncias daquele momento. Querer que aos 18 anos tomasse uma decisão que hoje, aos 45, tem certeza que seria a mais acertada é uma tremenda injustiça com o jovem que você foi. E esse você de antes não merece castigo eterno. Não merece ficar na prisão perpétua do arrependimento porque esse solo é areia movediça que não deixa sair do lugar quando a consciência do tal leite derramado deveria é impulsionar: retomar as rédeas para que, daqui a dez anos, não esteja novamente lamentando. O queixume pelo o que deixamos de fazer ou fizemos errado costuma emprestar uma licença poética para nos mantermos exatamente no mesmo lugar, apoiados nas muletas convenientes do autoflagelo. Este autoflagelo leva a um ... Leia Mais