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Não dá para fazer a princesa o tempo todo: às vezes a bruxa bota pra quebrar

Acredito em gente de verdade, naquelas com lado A e lado B. Da modalidade que é sensata a maior parte do tempo, mas estoura o cartão de crédito quando toma um fora do namorado. Pessoas que bebem com moderação até o dia em que batem a meta corporativa e enchem a lata e saem dizendo que amam os colegas da repartição. Aprovo quem gosta de todo mundo, mas, às vezes, não resiste e blasfema contra o cunhado e a sogra. E faz fofoca. E briga por política e retira-se do grupo do WhatsApp por pura malcriação. Sou fã daqueles que exageram na comida e depois culpam o metabolismo. Rezam para chover muito e assim terem um álibi para não ir à academia. Gente que marca compromisso, mesmo sabendo que não irá, só para não ficar mal com a galera. Gosto de quem não resiste a uma piada politicamente incorreta, a um doce calórico ou a colocar filtro na selfie. Das pessoas que pensam no look da festa a semana inteira e, ao serem notadas, dizem que pegaram a primeira roupa que viram no armário. Comem brigadeiro de colher direto na panela e se admiram no espelho, chorando. Gente boazinha: alerta ... Leia Mais

Todo mundo tem alguém que foi embora

Todo mundo tem alguém que foi embora e que, apesar de ter ido embora, nunca se transformou em ausência. Alguém que, mesmo não estando, dorme e acorda com a gente todos os dias. Toma um lado da cama, a cadeira no posto de trabalho ou viaja junto nas férias. Está na música que se ouve e protagoniza todos os filmes assistidos. Com quem se conversa o tempo todo, ciente de que a resposta não virá. Alguém que foi e não deixou só a saudade. Quando alguém assim retira-se, descobrimos o tamanho do espaço que o vazio pode ocupar. Um espaço tão grande que sobra pouco para acomodar qualquer coisa, principalmente as novas.  Porque vazio é solo seco onde nada prospera e não conseguimos plantar nem a esperança. O vazio de quem não está é tão robusto que é quase uma presença, mas uma presença triste e calada, que deixa sorrisos escassos e olhos apagados. Todo mundo tem alguém que deixou sonhos ou a pasta de dentes pela metade. Uma roupa pendurada no armário, um perfume dentro da gaveta ou um livro com a página marcada. Alguém que jurou que nunca iria a parte alguma e que partiu o juramento e ... Leia Mais

A pequena grande transgressão das sandálias vermelhas

Visitei o site umas 12 vezes. E a sandália lá, me provocando. Vermelha, ocupando toda a tela. Não era qualquer vermelho. Era um vermelho daqueles que se enxerga a dois quilômetros de distância e faz você virar ponto de referência: “aquela da sandália vermelha”. Uma papete meio espalhafatosa, com cara de verão, a um preço nada exorbitante. E tinha meu número – uma raridade quando se calça 34. Haviam também as outras cores ditas mais versáteis: nude, branco, amarelo e até a pretinha básica “vai com tudo”. Fiquei ali, naquela luta moral com o mouse em punho: colocava a amarela na sacola virtual do site, tentando me convencer de que ela tinha um pingo de ousadia e ia ficar linda com alguns dos meus vestidos. Mas, na hora de fechar o pedido, voltava a olhar a vermelha. E trocava. Conferia mentalmente a paleta de cores no meu armário e concluía, sem muita convicção, que a vermelhinha não daria certo com nada. E optava de novo por alguma cor daquelas que as pessoas esperavam ver nos meus pés. Porém, ainda que imbuída de toda esta racionalidade, não conseguia concluir a compra. “Pega a amarela. A vermelha é muito vermelha. Você não ... Leia Mais

Carta aberta ao ex: aquela que muitos gostariam de um dia escrever

Querido ex qualquer coisa – namorado, marido ou amante –, como vai? O tempo passou, descruzamos de vez nossos caminhos e o que lá atrás parecia impossível aconteceu: não é que a vida se transformou em um lugar melhor e hoje você não passa de uma vaga lembrança? Claro, não foi de uma hora para outra: no começo, sair da cama todas as manhãs foi uma dificuldade. “Para que mesmo?”, me perguntava. Os dias se arrastavam nublados, mesmo com o sol a pino do lado de fora. E o “lado de fora” era o que menos importava. Vivi aquele momento de egoísmo: minha dor doía como a maior do mundo. É uma fase de se afogar em lágrimas e de conseguir a proeza de sentir ódio e saudade no mesmo minuto. Num domingo que durou umas duas semanas, em um ato simbólico, recolhi todos os objetos que te representavam – de ursinhos de pelúcia aos chinelos esquecidos no banheiro –, enfiei tudo numa caixa e levei para o lixo do prédio. Mas, como é uma fase bipolar, o arrependimento já estava comigo na volta, no elevador. Apertei de novo o segundo subsolo e retornei agarrada na caixa resgatada, imaginando o ... Leia Mais

“Você é forte, vai superar”: a invisibilidade de quem dá conta de tudo

Tem gente que carrega o mundo nas costas sem muito mimimi, abusa da capacidade de levantar e sacudir a poeira e faz de um limão uma limonada. Geralmente são aqueles que escutam em velório ou diante de uma doença grave: “você é forte, vai superar”. E as pessoas fortes ficam ali, isoladas em uma fortaleza que nem sempre é real, invisíveis, enquanto veem o outro lavar as mãos e ir embora. Mas quem deixa as pessoas fortes falando sozinhas faz isso mais para se esquivar de oferecer ajuda e menos pela convicção de que o suposto super-herói vai dar conta de tudo. Mas a desculpa politicamente correta será na linha do “ele sabe o que faz”. Existe uma injustiça grotesca com os fortes: enquanto os fracos são amparados e poupados, os fortes são sobrecarregados e cobrados porque, afinal, aguentam. Ninguém conta com um fraco na hora que a bomba estoura, acreditando-se que ele não dá conta nem de resolver a própria vida. Já o forte sofrerá com o acúmulo de tarefas: é o bombeiro de plantão, incumbido de apagar incêndios, os seus e os da vizinhança. Por aparentar confiança, discernimento e serenidade, o forte vai ser escalado para estar à ... Leia Mais