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Wal Reis

Com que roupa eu vou? As dores e as delícias de vestir sua autoestima

O assunto aqui não é moda, passarelas ou o universo fashionista, apesar de, em um primeiro momento, parecer isso. O tema é a preocupação saudável com a aparência, de como nos apresentamos para o mundo. “Preocupação saudável” porque pode-se incorrer no erro de confundir com o clichê da ditadura da beleza, da necessidade de seguir padrões e, de novo, não é isso. Quando falamos em roupas, acontecem alguns fenômenos interessantes: ou somos tachados de fúteis, sob o argumento de o importante é a essência da pessoa, ou de materialistas porque a tendência é pensar que se trata de um privilégio de quem tem rios de dinheiro para gastar “à toa”. Porém, são contra-argumentos vazios, que deixam escapar a verdade por detrás da falta de cuidado ao se apresentar em público ou para o espelho: negligência com a autoestima e escassez de um olhar amoroso sobre si mesmo. Há um pensamento recorrente de que vestir bem é apenas necessário ao ir a uma festa, ao trabalho ou à igreja e que, no restante do tempo, é só encaixar uma calça e uma blusa “para bater” e evitar sair nu. “Roupa da missa”, diriam alguns. Este tipo de crença alimenta o descuido, ... Leia Mais

Feliz ano velho: quem disse que 2020 não valeu a pena ser vivido?

Na semana passada, uma campanha publicitária de uma importante seguradora brasileira me tocou. E olha que não sou daquelas que se comovem fácil, não. Mas a criação da agência AlmapBBDO, com a linda música “Novo Tempo”, de Ivan Lins, sintetizou um pensamento que acalento desde que a pandemia varreu a nossa rotina para baixo do tapete: este ano emblemático de 2020 valeu a pena, sim. A propaganda mostra pessoas com “feitos” de 2020 descritos nas máscaras: “tive um filho”; “aprendi violão” e “me formei” são algumas das frases que aparecem. A boa sacada está justamente no fato de sair do lugar comum, sem enaltecer ideias surradas de que o isolamento serviu para praticarmos autoconhecimento, ficarmos mais juntos com nossas famílias, cultivarmos hortas e tentarmos a meditação. A mensagem central é ainda mais singela e, por isso, eficiente: a vida não está nem aí se tem vírus ou não. Ela simplesmente acontece. E passa. Para quem acorda todo dia com saúde, é necessário seguir em frente com todos os “apesar de”: apesar das máscaras que nos sufocam; apesar da vontade de abraçar e beijar como antes; apesar da falta que festas e viagens fazem; apesar do álcool gel; apesar dos medidores ... Leia Mais

Sobre essa gente que se acha a última bolacha do pacote

Algumas pessoas não precisam abrir a boca para termos certeza de quem são. Pelo jeito que respiram dá para identificar se tem um ser humano ali que vale a pena ou um que deveria ter ficado dentro da camisinha. Gente que por algum motivo – formação ou deformação – acredita piamente que está entre os escolhidos para a Terra Prometida e, neste caso, né? Perder tempo com os hereges para quê? Nos escritórios, a espécie é abundante. Criam canais de comunicação com seus vários públicos, escrevem no perfil da rede social sobre a importância de interagir horizontalmente com os colaboradores e só abrem e-mail e WhatsApp do chefe. Se estão em um dia generoso até leem sua mensagem. Mas das seis perguntas que você fez, vão responder a primeira. E ainda terminam com “bom final de semana” em plena terça-feira, para que tenha certeza que a bondade de seu interlocutor terminou ali. E se estiver fora dos portões da corporação, experimente vender seu peixe para aqueles CEOs que se acham a Rainha da Inglaterra. Você manda a mensagem pelo canal disponível no site mais ou menos assim: “cara Elizabeth II, sei que é você quem faz as compras de batata ... Leia Mais

Não dá para fazer a princesa o tempo todo: às vezes a bruxa bota pra quebrar

Acredito em gente de verdade, naquelas com lado A e lado B. Da modalidade que é sensata a maior parte do tempo, mas estoura o cartão de crédito quando toma um fora do namorado. Pessoas que bebem com moderação até o dia em que batem a meta corporativa e enchem a lata e saem dizendo que amam os colegas da repartição. Aprovo quem gosta de todo mundo, mas, às vezes, não resiste e blasfema contra o cunhado e a sogra. E faz fofoca. E briga por política e retira-se do grupo do WhatsApp por pura malcriação. Sou fã daqueles que exageram na comida e depois culpam o metabolismo. Rezam para chover muito e assim terem um álibi para não ir à academia. Gente que marca compromisso, mesmo sabendo que não irá, só para não ficar mal com a galera. Gosto de quem não resiste a uma piada politicamente incorreta, a um doce calórico ou a colocar filtro na selfie. Das pessoas que pensam no look da festa a semana inteira e, ao serem notadas, dizem que pegaram a primeira roupa que viram no armário. Comem brigadeiro de colher direto na panela e se admiram no espelho, chorando. Gente boazinha: alerta ... Leia Mais

Todo mundo tem alguém que foi embora

Todo mundo tem alguém que foi embora e que, apesar de ter ido embora, nunca se transformou em ausência. Alguém que, mesmo não estando, dorme e acorda com a gente todos os dias. Toma um lado da cama, a cadeira no posto de trabalho ou viaja junto nas férias. Está na música que se ouve e protagoniza todos os filmes assistidos. Com quem se conversa o tempo todo, ciente de que a resposta não virá. Alguém que foi e não deixou só a saudade. Quando alguém assim retira-se, descobrimos o tamanho do espaço que o vazio pode ocupar. Um espaço tão grande que sobra pouco para acomodar qualquer coisa, principalmente as novas.  Porque vazio é solo seco onde nada prospera e não conseguimos plantar nem a esperança. O vazio de quem não está é tão robusto que é quase uma presença, mas uma presença triste e calada, que deixa sorrisos escassos e olhos apagados. Todo mundo tem alguém que deixou sonhos ou a pasta de dentes pela metade. Uma roupa pendurada no armário, um perfume dentro da gaveta ou um livro com a página marcada. Alguém que jurou que nunca iria a parte alguma e que partiu o juramento e ... Leia Mais